Quanto vale uma comunidade humana?

Sobre o filme Narradores de Javé que assisti novamente há poucos dias:

Resolvi começar a análise colocando a pergunta acima pois me parece que a maior questão do filme é essa e não as possíveis considerações acerca da história oral, de como se faz a história “oficial” ou “científica”, sobre a questão da identidade (pois se é humano, tem história que foi feita por gente, que fez dali sua base no mundo), ou até mesmo a discussão sobre qual é a “verdade” -versão mais aceita -sobre uma série de acontecimentos. Melhor seria então dizer que as questões que se me aparecem mais graves são, não só quanto vale uma comunidade, mas também, quanto vale sua história e se uma só vale pela outra. Isto é: uma comunidade só é digna de respeito quando tem uma “boa história” pra contar? O que é uma história digna de virar “patrimônio”?

Ao colocar esse dilema o filme expressa também a questão do desenvolvimento industrial capitalista que julga isto como apenas um efeito colateral passageiro, ou seja, o desenvolvimento da sociedade ainda que focada em uma parte dela (em detrimento de outra) teoricamente leva ao desenvolvimento de todas as outras através de um aumento das possibilidades de iniciativa privada que pode portanto prover um ganho maior àquelas pessoas em ontro local. O Banco Mundial, em um relatório de 1994, calcula que 4 milhões de pessoas são deslocadas por ano em todo mundo só por causa de grandes barragens, sendo que entre 1983 e 1993 foram “reassentadas involuntariamente” 90 milhões de pessoas. É a mesma quantidade de pessoas deslocadas pelas guerras ao redor do mundo(1). Como diria Antônio Biá em seu arroubo de lucidez e decepção no final do filme: “Isso é Científico!”

Visto que numa sociedade capitalista a palavra patrimônio está ligada a uma lógica de acumulação de riqueza, posso dizer que aquela gente se viu obrigada a “agregar valor ao seu produto humano”. Que história é digna de ser preservada, de ter o destino da comunidade que a criou poupado dessa violência? A história da Grécia e do Olimpo, de Roma e do Coliseu, do Ipiranga e seu grito?! O importante da história é a comunidade da qual é reflexo, que ao mesmo tempo a escreve e a ela se referencia. Não se pode dizer sem muito trabalho que a história tem uma função em si, mas com certeza uma de suas propriedades é dar a uma determinada comunidade humana (e suas relações) um ponto de partida dentro do qual se cnam (e por conseguinte, se desenvolvem e transformam a história) identidades, práticas, visões de mundo, etc. A história de Indalécio e Maria Dina, sua peregrinação de sino e tudo, funciona como gerador de referências, um “mito de origem” no qual se espelham os moradores da comunidade. Seja como herói ou covarde (se foi fuga ou “retirada”, até hoje ninguém descobriu mas, não faz díferença), Indalécio é a referência para os homens daquela comunidade, seja como líder valente ou louca varrida, Maria Dina é uma referência de identificação das mulheres que destacam seu papel. Essas referências (assim como a religiosidade tragicômica do sino transplantado de lá pra cá, símbolo de que essa comunidade tem de se agarrar a outras fonnas de identidade, que não a história e a região, há muito tempo…) criam um conjunto de identidades pessoais (algumas requerendo mesmo relações de parentesco direto com os heróis), identidades locais, e relações sociais tão rico quanto o de qualquer outra comunidade humana É preciso rever o quanto antes os critérios pelos quais se guiam os “caminhos do desenvolvimento”, o eixo tem de mudar da produção para o homem.

É neste momento (de transplante da comunidade) que a sensação generalizada e antiga de que o homem não faz a história, de que ela é lhe é externa e imutável e se dá apesar dele, é reforçada pelo modelo de desenvolvimento dominante.

Por fim, diria que o valor de uma comunidade não está no fato de sua história ser mais bonita ou mais importante segundo critérios subjetivos (ou “científicos”), mas sim de que toda comunidade, todo homem, não só tem história, mas dela é ator principal.

(1) World Bank Enviroment Department (1994) Resettlement and Development. The bankwide review of projects involving involuntaIy resettlement 1986-1993 s.I., The World Bank Enviroment Department, 1994. Tirado de A violência como fator migratório: Silêncios teóricos e evidências históricas. (Carlos B. Vainer, Revista Travessia Maio-Agosto/96.

Anúncios

Tags: , , ,

Uma resposta to “Quanto vale uma comunidade humana?”

  1. Os números de 2010 « Linha Dura Says:

    […] Quanto vale uma comunidade humana? novembro, 2008 4 […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: